O divino Mestre.

O divino Mestre.
Eu sou o caminho, a verdade e a vida.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A oração do horto.

Da obra "A Boa Nova"  de Irmão X, psicografia: Chico Xavier.


Depois do ato de humildade extrema, de lavar os pés a todos os discípulos, Jesus retomou o lugar
que ocupava à mesa do banquete singelo e, antes de se retirarem, elevou os olhos ao céu e orou assim,
fervorosamente, conforme relata o Evangelho de João:
Pai, santo, eis que é chegada a minha hora! Acolhe-me em teu amor, eleva o teu filho, para que ele
possa elevar-te, entre os homens, no sacrifício supremo. Glorifiquei-te na Terra, testemunhei tua
magnanimidade e sabedoria e consumo agora a obra que me confiaste. Neste instante, pois, meu Pai,
ampara-me com a luz que me deste, muito antes que este mundo existisse!...
E fixando o olhar amoroso sobre a comunidade dos discípulos, que silenciosos lhe acompanhavam a
rogativa, continuou:
Manifestei o teu nome aos amigos que me deste; eram teu e tu mos confiaste, para que recebessem
a tua palavra de sabedoria e de amor. Todos eles sabem agora que tudo quanto lhes dei provém de ti!
Neste instante supremo, Pai, não rogo pelo mundo, que é obra tua e cuja perfeição se verificará algum
dia, porque está nos teus desígnios insondáveis; mas, peço-te particularmente por eles, pelos que me
confiaste, tendo em vista o esforço a que os obrigará o Evangelho, que ficará no mundo sobre os seus
ombros generosos. Eu já não sou da Terra; mas rogo-te que os meus discípulos amados sejam unidos uns
aos outros, como eu sou um contigo! Dei-lhes a tua palavra para o trabalho santo da redenção das
criaturas; que, pois, eles compreendam que, nessa tarefa grandiosa, o maior testemunho é o do nosso
próprio sacrifício pela tua casa, compreendendo que estão neste mundo, sem pertencerem às suas
ilusórias convenções, por pertencerem só a ti, de cujo amor viemos todos para regressar à tua
magnanimidade e sabedoria, quando houvermos edificado o bom trabalho e vencido na luta proveitosa.
Que os meus discípulos, Pai, não façam da minha presença pessoal o motivo de sua alegria imediata; que
me sintam sinceramente em suas aspirações, a fim de experimentarem o meu júbilo completo em si
mesmos. Junto deles, outros trabalhadores do Evangelho despertarão para a tua verdade. O futuro estará
cheio desses operários dignos do salário celeste. Será de algum modo, a posteridade do Evangelho do
Reino que se perpetuará na Terra, para glorificar a tua revelação! Protege-os a todos, Pai! Que todos
recebam a tua benção, abrindo seus corações às claridades renovadoras! Pai justo, o mundo ainda não te
conheceu; eu porém, te conheci e lhes fiz conhecer o teu nome e a tua bondade infinita, para que o amor
com que me tens amado esteja neles e eu neles esteja ! ...
***
Terminada a oração, acompanhada em religioso silêncio por parte dos discípulos, Jesus se retirou
em companhia de Simão Pedro e dos dois filhos de Zebedeu para o Monte das Oliveiras, onde costumava
meditar. Os demais companheiros se dispersaram, impressionados, enquanto Judas, afastando-se com
passos vacilantes, não conseguia aplacar a tempestade de sentimentos que lhe devastava o coração.
O Crepúsculo começava a cair sobre o céu claro. Apesar do sol radioso da tarde a iluminar a
paisagem soprava o vento em rajadas muito frias.
Dai a alguns instantes, O Mestre e os três companheiros alcançavam o monte, povoado de árvores
frondosas, que convidavam ao pensamento contemplativo.
Acomodando os discípulos em bancos naturais que as ervas do caminho se incumbiam de adornar,
falou-lhes o Mestre, em tom sereno e resoluto:
– Esta é a minha derradeira hora convosco! Orai e vigiai comigo, para que eu tenha a glorificação de
Deus no supremo testemunho!
Assim dizendo, afastou-se à pequena distância onde permaneceu em prece, cuja sublimidade os
apóstolos não podiam observar. Pedro, João e Tiago estavam profundamente tocados pelo que viam e
ouviam. Nunca o Mestre lhes parecera tão solene, tão convicto, como naquele instante de penosas
recomendações. Rompendo o silêncio que se fizera, João ponderou :
Oremos e vigiemos, de acordo com a recomendação do Mestre, pois, se ele aqui nos trouxe, apenas
nós três, em sua companhia, isso deve significar para o nosso espírito a grandeza da sua confiança em
nosso auxílio.
Puseram-se a meditar silenciosamente. Entretanto, sem que lograssem explicar o motivo,
adormeceram no recurso da oração.
Passados alguns minutos, acordavam, ouvindo o Mestre que lhe observava:
– Despertai! Não vos recomendei que vigiásseis? Não podereis velar comigo, um minuto?
João e os companheiros esfregaram os olhos, reconhecendo a própria falta. Então, Jesus, cujo olhar
parecia iluminado por estranho fulgor, lhes contou que fora visitado, por um anjo de Deus que o
confortara para o martírio supremo. Mais uma vez lhes pediu que orassem com o coração e novamente se afastou. Contudo, os discípulos, insensivelmente, cedendo aos imperativos do corpo e olvidando as
necessidades do espírito, de novo adormeceram era meio da meditação. Despertaram com o Mestre a
lhes repetir :
– Não conseguistes, então, orar comigo?
Os três discípulos acordaram estremunhados. A paisagem desolada de Jerusalém mergulhava na
sombra.
Antes, porém, que pudessem justificar de novo a sua falta, um grupo de soldados e populares
aproximou-se, vindo Judas à frente.
O filho de Iscariote avançou e depôs na fronte do Mestre o beijo combinado, ao passo que Jesus,
sem denotar nenhuma fraqueza e deixando a lição de sua coragem e de seu afeto aos companheiros,
perguntou :
– Amigo, a que vieste?
Sua interrogação, todavia, não recebeu qualquer resposta. Os mensageiros dos sacerdotes
prenderam-no e lhe manietara as mãos, como se o fizessem a um salteador vulgar.
***
Depois das cenas descritas com fidelidade nos Evangelhos, observamos as disposições psicológicas
dos discípulos, no momento doloroso. Pedro e João foram os últimos a se separarem do Mestre bemamado, depois de tentarem fracos esforços pela sua libertação.
No dia seguinte, os movimentos criminosos da turba arrefeceram o entusiasmo e o devotamento dos
companheiros mais enérgicos e decididos na fé. As penas impostas a Jesus eram excessivamente severas
para que fossem tentados a segui-lo. Da Corte Provincial ao palácio de Antipas, viu-se o condenado
exposto ao insulto e à zombaria. Com exceção do filho de Zebedeu, que se conservou ao lado de Maria,
até ao instante derradeiro, todos os que integravam O reduzido colégio do Senhor debandaram. Receosos
da perseguição, alguns se ocultaram nos sítios próximos, enquanto outros, trocando as túnicas habituais,
seguiam, de longe, o inesquecível cortejo, vacilando entre a dedicação e o temor.
O Messias, no entanto, coroando a sua obra com o sacrifício máximo, tomou a cruz sem uma
queixa, deixando-se imolar, sem qualquer reprovação aos que o haviam abandonado, na hora ultima.
Conhecendo que cada criatura tem o seu instante de testemunho, no caminho de redenção da existência,
observou às piedosas mulheres que o cercavam banhadas em lágrimas: – “Filhas de Jerusalém, não
choreis por mim, chorai por vós mesmas e por vossos filhos!...”
Exemplificando a sua fidelidade a Deus, aceitou serenamente os desígnios do céu, sem que uma
expressão menos branda contradissesse a sua tarefa purificadora.
Apesar da demonstração de heroísmo e de inexcedível amor, que ofereceu do cimo do madeiro, os
discípulos continuaram subjugados pela dúvida e pelo temor, até que a ressurreição lhes trouxesse
incomparáveis hinos de alegria,
João, todavia, em suas meditações acerca do Messias entrou a refletir maduramente sobre a oração
do Horto das Oliveiras, perguntando a si próprio a razão daquele sono inesperado, quando desejava
atender ao desejo de Jesus, orando em seu espírito até o fim das provas ríspidas. Por que dormira ele,
que tanto o amava, no momento em que o seu coração amoroso mais necessitava de assistência e de
afeto? Por que não acompanhara a Jesus naquela prece derradeira, onde sua alma parecia apunhalada
por intraduzível angustia, nas mais dolorosas expectativas? A visão do Cristo ressuscitado veio encontrá-
lo absorto nesses amargurados pensamentos. Em oração silenciosa, João se dirigia muitas vezes ao
Mestre adorado, quase em lágrimas, implorando-lhe perdoasse o seu descuido da hora extrema.
***
Algum tempo passou, sem que o filho de Zebedeu conseguisse esquecer a falta de vigilância da
véspera do martírio.
Certa noite, após as reflexões costumeiras, sentiu ele que um sono brando lhe anestesiava os
centros vitais. Como numa atmosfera de sonho, verificou que o Mestre se aproximava. Toda a sua figura
se destacava na sombra,, com divino resplendor. Precedendo suas palavras o sereno sorriso dos tempos
idos, disse-lhe Jesus :
– João, a minha soledade no horto é também um ensinamento do Evangelho e uma exemplificação!
Ela significará, para quantos vierem em nossos passos, que cada espírito na Terra tem de ascender
sozinho ao calvário de sua redenção, muitas vezes com a despreocupação dos entes mais amados do
mundo. Em face dessa lição, o discípulo do futuro compreenderá que a sua marcha tem que ser solitária,
estando seus familiares e companheiros de confiança a dormir o sono da indiferença!
Doravante, pois, aprendendo a necessidade do valor individual no testemunho, nunca deixes de orar
e vigiar!...