O divino Mestre.

O divino Mestre.
Eu sou o caminho, a verdade e a vida.

sábado, 26 de outubro de 2013

Texto do livro "Estante da vida," de Irmão X. Psicografia: Chico Xavier.

34 – O ANJO SOLITÁRIO
Enquanto o Mestre agonizava na cruz, rasgou-se o céu em Jerusalém e entidades
angélicas, em grupos extensos, desceram sobre o Calvário doloroso...
Na poeira escura do chão, a maldade e a ignorância expeliam trevas demasiadamente
compactas para que alguém pudesse divisar as manifestações sublimes.
Fios de claridade indefinível passaram a ligar o madeiro ao firmamento, embora a
tempestade se anunciasse a distância...
O Cristo, de alma sedenta e opressa, contemplava a celeste paisagem, aureolado pela
glória que lhe bafejava a fronte de herói, e os emissários do Paraíso chegavam, em
bandos, a entoaram cânticos de amor e reconhecimento que os tímpanos humanos
jamais poderiam perceber.
Os Anjos da Ternura rodearam-lhe o peito ferido como a lhe insufladores energias novas.
Os portadores da Consolação ungiram-lhe os pés sangrentos com suave bálsamo.
Os Embaixadores da Harmonia, sobraçando instrumentos delicados, formaram coroa
viva, ao redor de sua atribulada cabeça, desferindo comovedoras melodias a se
espalharem por bênçãos de perdão sobre a turba amotinada.
Os Emissários da Beleza teceram guirlandas de rosas e lírios sutis, adornando a cruz
ingrata.
Os Distribuidores de Justiça, depois de lhe oscularem as mãos quase hirtas, iniciaram a
catalogação dos culpados para chamá-los a esclarecimento a reajuste em tempo devido.
Os Doadores de Carinho, em assembléia encantadora, postaram-se à frente dele e
acariciavam-lhe os cabelos empastados de sangue.
Os Enviados da Luz acenderam focos brilhante nas chagas doloridas, fazendo-lhe olvidar
o sofrimento.
Trabalhavam os mensageiros do Céu, em torno do Sublime Condutor dos Homens,
aliviando-o e exaltando-o, como a lhe prepararem o banquete da ressurreição, quando um
anjo aureolado de intraduzível esplendor apareceu, solitário, descendo do império
magnificente da Altura.
Não trazia seguidores e, em se abeirando do Senhor, beijou-lhe os pés, entre respeitoso e
enternecido. Não se deteve na ociosa contemplação da tarefa que, naturalmente, cabia
aos companheiros, mas procurou os olhos de Jesus, dentro de uma ansiedade que não
se observara em nenhum dos outros.
Dir-se-ia que o novo representante do Pai Compassivo desejava conhecer a vontade do
Mestre, antes de tudo. E, em êxtase, elevou-se do solo em que pousara, aos braços do

madeiro afrontoso. Enlaçou o busto do Inesquecível Supliciado, com inexcedível carinho,
e colocou, por um instante, o ouvido atento em seus lábios que balbuciavam de leve.
Jesus pronunciou algo que os demais não escutaram distintamente.
O mensageiro solitário desprendeu-se, então, do lenho duro, revelando olhos serenos e
úmidos e, de imediato, desceu do monte ensolarado para as sombras que começavam a
invadir Jerusalém, procurando Judas, a fim de socorrê-lo e ampará-lo.
Se os homens lhe não viram a expressão de grandeza e misericórdia, os querubins em
serviço também lhe não notaram a ausência. Mas, suspenso no martírio, Jesus
contemplava-o, confiante, acompanhando-lhe a excelsa missão, em silêncio.
Esse, era o anjo divino da Caridade.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Texto de Irmão X. Psicografia: Chico Xavier

05 - O CAMINHO DO REINO
Na tosca residência de Arão, o curtidor, dizia Jesus a Zacarias, dono de extensos vinhedos
em Jericó:
- O Reino de Deus será, por fim, a vitória do bem, no domínio dos homens!... O Sol cobrirá o
mundo por manto de alegria luminosa, guardando a paz triunfante. Os filhos de todos os
povos andarão vinculados uns aos outros, através do apoio mútuo. As guerras terão
desaparecido, arredadas da memória, quais pesadelos que o dia relega aos princípios da
noite!... Ninguém se lembrará de exigir o supérfluo e nem se esquecerá de prover os
semelhantes do necessário, quando o necessário se lhes faça preciso. A seara de um
lavrador produzirá o bastante para o lavrador que não conseguiu as oportunidades da
sementeira e o teto de um irmão erguer-se-á igualmente como refúgio do peregrino sequioso
de afeto, sem que a idéia do mal lhes visite a cabeça... A viuvez e a orfandade nunca mais
derramarão sequer ligeira lágrima de sofrimento, porquanto a morte nada mais será que
antecâmara da união no amor perpétuo que clareia o sem-fim. Os enfermos, por mais
aparentemente desvalidos, acharão leito repousante, e as moléstias do corpo deixarão de
ser monstros que espreitam a moradia terrestre, para significarem simplesmente notícias
breves das leis naturais no arcabouço das formas. O trabalho não será motivo de cativeiro e
sim privilégio sagrado da inteligência. A felicidade e o poder não marcarão o lugar dos que
retenham ouro e púrpura, mas o coração daqueles que mais se empenham no doce
contentamento de entender e servir. O lar não se erigirá em cadinho de provação, porque
brilhará incessantemente por ninho de bênçãos, em cujo aconchego palpitarão as almas
felizes que se encontram para bendizer a confiança e a ternura sem mácula. O homem
sentir-se-á responsável pela tranqüilidade comum, nos moldes da reta consciência,
transfigurando a ação edificante em norma de cada dia; a mulher será respeitada, na
condição de mãe e companheira, a que devemos, originariamente, todas as esperanças e
regozijos que desabrocham na Terra, e as crianças serão consideradas por depósitos de
Deus!... A dor de alguém será repartida, qual transitória sombra entre todos, tanto quanto o
júbilo de alguém se espalhará, na senda de todos, recordando a beleza do clarão estelar... A
inveja e o egoísmo não mais subsistirão, visto que ninguém desejará para os outros aquilo
que não aguarda em favor de si mesmo! Fontes deslizarão entre jardins, e frutos
substanciosos penderão nas estradas, oferecendo-se à fome do viajor, sem pedir-lhe nada
mais que uma prece de gratidão à bondade do Pai, de vez que todas as criaturas alentarão
consigo o anseio de construir o Céu na Terra que o todo misericordioso lhes entregou!...
Deteve-se Jesus contemplando a turba que o aplaudia, frenética, minutos depois da sua
entrada em Jerusalém para as celebrações da Páscoa, e, notando que os israelitas se
diferençavam entre si, a revelarem particularidades das regiões diversas de que procediam
acentuou:
- Quando atingirmos, coletivamente, o Reino dos Céus, ninguém mais nascerá sob qualquer
sinal de separação ou discórdia, porque a Humanidade se regerá pelos ideais e interesses
de um mundo só!...

Enlevado, Zacarias fitou-o com ansiosa expectação e ponderou com respeito:
- Senhor, vim de Jericó para o culto às tradições de nossos antepassados; todavia, acima de
tudo, aspirava a encontrar-te e ouvir-te... Envelheci, arando a gleba e sonhando com a paz!...
Tenho vivido nos princípios de Moisés; no entanto, do fundo de minha alma, quero chegar ao
Reino de Deus do qual te fazes mensageiro nos tempos novos!... Mestre! Mestre!... Para
buscar-te percorri a trilha de minha estância até aqui, passo a passo... De vila em vila, de
casa em casa, um caminho existe, claro, determinado... Qual é, porém, Senhor, o Caminho
para o Reino de Deus?
- A estrada para o Reino de Deus é uma longa subida... – começou Jesus, explicando.
Eis, contudo, que filas de manifestantes penetraram o recinto, interrompendo-lhe a frase e
arrebatando-o à praça fronteiriça, recoberta de flores.
* * *
Zacarias, em êxtase, demandou o sítio de parentes, no vale de Hinom, demorando-se por
dois dias em comentários entusiastas, ao redor das promessas e ensinos do Cristo, mas, de
retorno à cidade, não surpreende outro quadro que não seja a multidão desvairada e
agressiva...
Não mais a glorificação, não mais a festa. Diante do ajuntamento, o Mestre, em pessoa, não
mais querido. Aqueles mesmos que o haviam honorificado em cânticos de louvor apupavam-no
agora com requintes de injúria.
O velho de Jericó, translúcido de espanto, viu que o Amado Amigo, cambaleante e suarento,
arrastava a cruz dos malfeitores... Ansiou abraçá-lo e esgueirou-se, dificilmente, suportando
empuxões e zombarias do populacho... Rente ao madeiro, notou que um grupo de mulheres
chorosas obrigava o Mestre a parada imprevista e, antecedendo-se-lhes à palavra, ajoelhou-se
diante dele e clamou:
- Senhor!... Senhor!...
Jesus retirou do lenho a destra ferida, afagou-lhe, por instantes, os cabelos que o tempo
alvejara, lembrando o linho quando a estriga descansa junto da roca, e falou, humilde:
- Sim, Zacarias, os que quiserem alcançar o Reino de Deus subirão ladeira escabrosa...
Em seguida, denotou a atenção de quem escutava os insultos que lhe eram endereçados...
Finda a pausa ligeira, apontou para o amigo, com um gesto, a poeira e o pedregulho que se
avantajavam à frente e, como a recordar-lhe a pergunta que deixara sem resposta, afirmou
com voz firme:

- Para a conquista do Reino de Deus, este é o caminho...

Texto do livro "Relatos da vida," Autor: Irmão X. Psicografia: Chico Xavier.

Pergunta no Ar

Tempos depois do regresso de Jesus às Esferas Superiores, transformara-se Pedro, o apóstolo, em Jerusalém, no esteio firme da causa evangélica. Todos os dias, a faina difícil. Os necessitados de todas as procedências e, com os necessitados, os perseguidores, os adversários, os donos do sarcasmo, os campeões da galhofa e quantos compunham a multidão de obsessos e infelizes.
Simão, ora brando, ora enérgico, servia sempre.
A feição humana do amigo de Jesus era, porém, examinada, sem qualquer compaixão, pelos críticos intransigentes.
Era Pedro fraco ou forte, vaidoso ou humilde, compreensivo ou intolerante?
Nesse clima de diz-que-diz, achava-se Eliaquim, filho de Josias, à procura de ervilhas, em pequeno mercado de verduras, quando se viu à frente de Natan, fariseu letrado e rico da cidade, que passou a inquiri-lo de maneira direta:
- Então, é você agora um cliente daqueles que seguem o Messias?
- Sim – confirmou o interpelado. – Vi-me doente de um dia para o outro, e, além de tudo, despojado de todos os meus bens pela ambição de parentes ingratos... Em terrível penúria, recorri a Simão, que me acolheu...
- Simão Pedro?
- Ele mesmo.
- E, porventura, você se sente tranqüilo?
- Como não? Tenho hoje, com ele, um novo lar.
Natan pousou a destra no ombro do amigo e murmurou:
- Eliaquim, francamente não entendo a razão pela qual tantos compatriotas se deixam embair pelas manhas do pescador que se faz de santo. Tenho lido e ouvido algo, acerca do Profeta Nazareno, e não lhe regateio admiração. Mas... Pedro? Um brutamontes mascarado de mestre? Descansei por várias semanas na Galiléia, junto ao lago, em cujas bordas andou Jesus ensinando a nova doutrina... E, em torno de Simão, apenas recolhi apontamentos escabrosos. É um poço de prepotência e brutalidade, na forma de um homem. Contam-se dele coisas incríveis. Não se trata unicamente da negação em que se fez conhecido por traidor do próprio Jesus, a quem diz reverenciar. Dizem que foi sempre um modelo completo de crueldade e ingratidão. Mau filho, mau amigo. Alguns companheiros, que pude ouvir mais intimamente, declaram-no viciado e vaidoso. Além de tudo isso, é notório em Jerusalém que ele não tem cultura alguma. Arrasa com as nossas tradições e ensinamentos, quando se expõe a falar em público. O homem abre a boca e o desastre aparece. Confunde Isaías com Jeremias, atribui a David palavras de Moisés. Israelitas distintos, recém-chegados da Grécia, que se puseram a escutá-lo, por respeito a Jesus, retiraram-se daqui escandalizados, segundo me disseram. Que fazem vocês com um ferrabrás dessa ordem? Acaso, não buscam saber se Pedro possui moral bastante e educação suficiente para tratar de encargos de que ousadamente se ocupa?
E porque Eliaquim emudecesse, respeitoso, Natan, insistiu:
- Diga-me, por favor, qual é a sua própria opinião?
O interpelado fitou o poderoso fariseu, demoradamente, e, depois de alguns instantes de expectação, respondeu sem alterar-se:
- Natan, é verdade que Simão é um homem rude, com muitos defeitos, apesar dos tesouros de amor e serviço que derrama do coração, mas... e você, meu amigo? Você que possui milhares de livros e estudou ao pé dos sábios de Jerusalém e de Alexandria, você que conhece Roma e Atenas, talvez palmo a palmo, você que é proprietário de fazendas e terras, casas e rebanhos, você que pode ser virtuoso, provavelmente porque não tem nenhuma de nossas necessidades materiais, que faz você, por amor a Deus, em auxílio ao próximo?

Natan fixou um sorriso amarelo, deu de ombros, lançou saliva na terra seca, ergueu a cabeça altiva e afastou-se, enquanto a pergunta ficou no ar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Texto do livro "A boa nova." Autor : Irmão X. Psicografia: Chico Xavier


XXVI- A NEGAÇÃO DE PEDRO
O ato do Messias, lavando os pés de seus discípulos, encontrou certa incompreensão da parte de Simão Pedro. O velho pescador não concordava com semelhante ato de extrema submissão. E, chegada a sua vez, obtemperou, resoluto:
– Nunca me lavareis os pés, Mestre; meus companheiros estão sendo ingratos e duros neste instante, deixando-vos praticar êsse gesto, como se fôsseis um escravo vulgar.
Em seguida a essas palavras, lançou à assembléia um olhar de reprovação e desprezo, enquanto Jesus lhe respondia:
– Simão, não queiras ser melhor que os teus irmãos de apostolado, em nenhuma circunstância da vida. Em verdade, assevero-te que, sem o meu auxílio, não participarás com o meu espírito das alegrias supremas da redenção.
O antigo pescador de Cafarnaum aquietou-se um pouco, fazendo calar a voz de sua generosidade quase infantil.
Terminada a lição e retomando o seu lugar à mesa, o Mestre parecia meditar gravemente. Logo após, todavia, dando a entender que sua visão espiritual devassava os acontecimentos do futuro, sentenciou :
– Aproxima-se a hora do meu derradeiro testemunho! Sei, por antecipação, que todos vós estareis dispersados nesse instante supremo.É natural, porquanto ainda não estais preparados senão para aprender. Antes, porém, que eu parta, quero deixar-vos um novo mandamento, o de amar-vos uns aos outros como eu vos tenho amado ; que sejais conhecidos como meus discípulos, não pela superioridade no mundo, pela demonstração de poderes espirituais, ou pelas vestes que envergueis na vida, mas pela revelação do amor com que vos amo, pela humildade que deverá ornar as vossas almas, pela boa disposição no sacrifício próprio.
Vendo que Jesus repetia uma vez mais aquelas recomendações de despedida, Pedro, dando expansão ao seu temperamento irrequieto,
adiantou-se, indagando :
– Afinal, Senhor, para onde ides?
O Mestre lhe lançou um olhar sereno, fazendo-lhe sentir o interesse que lhe causava a sua curiosidade e redargüiu :
– Ainda não te encontras preparado para seguir-me. O testemunho é de sacrifício e de extrema abnegação e somente mais tarde entrarás na posse da fortaleza indispensável.
Simão, no entanto, desejando provar por palavras aos companheiros o valor da sua dedicação, acrescentou, com certa ênfase, ao propósito de se impor à confiança do Messias :
– Não posso seguir-vos? Acaso, Mestre, podereis duvidar de minha coragem? Então, não sou um homem? Por vós darei a minha própria vida.
O Cristo sorriu e ponderou :
– Pedro, a tua inquietação se faz credora de novos ensinamentos. A experiência te ensinará melhores conclusões, porque, em verdade, te afirmo que esta noite o galo não cantará, sem que me tenhas negado por três vezes.
– Julgais-me, então, um espírito mau e endurecido a êsse ponto? – Indagou o pescador, sentindo-se ofendido.
– Não, Pedro – adiantou o Mestre, com doçura – não te suponho ingrato ou indiferente aos meus ensinos. Mas, vais aprender, ainda hoje, que o homem do mundo é mais frágil do que perverso.
***
Pedro não quis acreditar nas afirmações do Messias e tão logo se verificara a sua prisão, no pressuposto de demonstrar o seu desassombro e boa disposição para a defesa do Evangelho do Reino, atacou com a espada um dos servos do sumo sacerdote de Jerusalém, compelindo o Mestre a mais severas observações. Consoante as afirmativas de Jesus, o colégio dos apóstolos se dispersara, naquele momento de supremas resoluções. A humildade com que o Cristo se entregava desapontara a alguns deles, que não conseguiam compreender a transcendência daquele Reino de Deus, sublimado e distante.
Pedro e João, observando que a detenção do Mestre pelos emissários do templo era fato consumado, combinaram, entre si, acompanhar, de longe, o grupo que se afastava, conduzindo o Messias. Debalde, procuraram os demais companheiros que, receosos da perseguição, haviam debandado.
Ambos, no entanto, desejavam prestar a Jesus o auxílio necessário. Quem sabe poderiam encontrar um recurso de salvá-lo? Era mister certificar-se de tôdas as ocorrências. Mobilizariam suas humildes relações em Jerusalém, a favor do Mestre querido. Compreendiam a extensão do perigo e as ameaças que lhes s pesavam sobre a fronte. De instante a instante, eram surpreendidos por homens do povo que, em palestra de caminho, acusavam a Jesus de feiticeiro e herético.
A noite caíra sobre a cidade.
Os dois discípulos observaram que a expedição de servos e soldados chegava à residência de Caifaz, onde o Cristo foi recolhido a uma cela úmida, cujas grades davam para um pátio extenso.
O prisioneiro fora trancafiado, por entre zombarias e impropérios. Ao grupo reduzido, juntava-se agora a massa popular, então em pleno alvoroço festivo, nas comemorações da Páscoa. O pátio amplo foi invadido por uma aluvião de pessoas alegres.
Pedro e João compreenderam que as autoridades do Templo imprimiam caráter popular ao movimento de perseguição ao Messias, vingando-se de sua vitória na entrada triunfal em Jerusalém, como uma nova esperança para o coração dos desalentados e oprimidos.
Depois de ligeiro entendimento, o filho de Zebedeu voltou a Betânia, afim de colocar a mãe de Jesus ao corrente dos fatos, enquanto Pedro se misturava à aglomeração, de maneira a observar em que poderia ser útil ao Messias.
O ambiente estava já preparado pelo farisaísmo para os tristes acontecimentos do dia imediato. Em tôdas as rodas, falava-se do Cristo como de um traidor ou revolucionário vulgar. Alguns comentadores mais exaltados o denunciavam como ladrão. Ridicularizava-se o seu ensinamento, zombava-se de sua exemplificação e não faltavam os que diziam, em voz alta, que o Profeta Nazareno havia chegado à cidade chefiando um bando de salteadores.
O velho pescador de Cafarnaum sentiu a hostilidade com que teria de lutar, afim de socorrer o Messias, e experimentou um frio angustioso no coração. Sua resolução parecia vencida. A alma ansiosa se deixava dominar por dúvidas e aflições. Começou a pensar nos seus familiares, em suas necessidades comuns, nas convenções de Jerusalém que ele não poderia afrontar sem pesados castigos. Com o cérebro fervilhando de expectativas e cogitações de defesa própria, penetrou no pátio extenso, onde se adensava a multidão.
Para logo, uma das servas da casa se aproximou dele e exclamou, surpreendida:
– Não és tu um dos companheiros deste homem? – Indagou, designando a cela onde Jesus se achava encarcerado.
O pescador refletiu um momento e, reconhecendo que o instante era decisivo, respondeu, dissimulando a própria emoção :
– Estás enganada. Não sou.
O apóstolo ponderou aquela primeira negativa e pôs-se a considerar que semelhante procedimento, aos seus olhos, era o mais razoável, porquanto tinha de empregar tôdas as possibilidades ao seu alcance, a favor de Jesus.
Fingindo despreocupação, o irmão de André se dirigiu a uma pequena aglomeração de populares, onde cada qual procurava esquivar-se ao frio intenso da noite, aquentando-se junto de um braseiro.
Novamente um dos circunstantes, reconhecendo-o, o interpelou nestes termos :
– Então, vieste socorrer o teu Mestre?
– Que Mestre? – perguntou o pescador de Cafarnaum, entre receoso e assustado – Nunca fui discípulo desse homem. Fornecida essa explicação, todo o grupo se sentiu à vontade para comentar a situação do prisioneiro. Longas horas passaram-se para Simão Pedro, que tinha o coração a duelar-se com a própria consciência, naqueles instantes penosos em que fora chamado ao testemunho. A noite ia adiantada, quando alguns servidores vieram servir bilhas de vinho. Um deles encarando o discípulo com certo espanto, exclamou de súbito:
– É este!... É bem aquele discípulo que nos atacou à espada, entre as árvores do horto!...
– Simão ergueu-se pálido e protestou :
– Estás enganado, amigo! Vê que isso não seria possível!...
Logo que pronunciou sua derradeira negativa, os galos da vizinhança cantaram em vozes estridentes, anunciando a madrugada.
Pedro recordou as palavras do Mestre e sentiu-se perturbado por infinita angústia. Levantou-se cambaleante e, voltando-se instintivamente para a cela em que o Mestre se achava prisioneiro, viu o semblante sereno de Deus a contemplá-lo através das grades singelas.
***
Presa de indizível remorso, o apóstolo retirou-se envergonhado de si mesmo. Dando alguns passos, alcançou os muros exteriores, onde se deteve a chorar amargamente. Ele, que fora sempre homem ríspido e resoluto, que condenara invariàvelmente os transviados da verdade e do bem, que nunca conseguira perdoar as mulheres mais infelizes, ali se encontrava, abatido como uma criança, em face de sua própria falta. Começava a entender a razão de certas experiências dolorosas de seus irmãos em humanidade. Em seu espírito como que desabrochava uma fonte de novas considerações pelos infortunados da vida. Desejava, ansiosamente, ajoelhar-se ante o Messias e suplicar-lhe perdão para a sua queda dolorosa.
Através do véu de lágrimas que lhe obscurecia os olhos, Simão Pedro experimentou uma visão consoladora e generosa. Figurou-se-lhe que o Mestre vinha vê-lo, em espírito, na solidão da noite, trazendo nos lábios aquele mesmo sorriso sereno de todos os dias. Ante a emoção confortadora e divina, Pedro ajoelhou-se e murmurou:
– Senhor, perdoai-me!
Mas, nesse instante, não mais viu, na confusão de seus angustiados pensamentos. Luar alvíssimo enfeitava de luz as vielas desoladas. Foi ai que o antigo pescador refletiu mais austeramente, lembrando as advertências amigas de Jesus, quando lhe dizia : – “Pedro, o homem do mundo é mais frágil do que perverso!...”

terça-feira, 15 de outubro de 2013

"Ai do mundo por causa dos escândalos..."

“Ai do mundo por causa dos escândalos, porque é necessário que existam escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!”
                                            Mateus 18: 7

Os que pensam e muitos sábios do mundo poderiam auferir um profundo ensinamento desta frase.
Nosso mestre Jesus abordou um ponto de interesse filosófico vital a qualquer pessoa ao dizer “Ai do mundo por causa dos escândalos, porque é necessário que existam escândalos” ...
Estas palavras revelam um aspecto importante da existência humana, explica a necessidade absoluta dos acontecimentos angustiantes tantas vezes presente na história humana.
O mestre divino abordou aqui uma das questões filosóficas mais antigas em todos os tempos: a necessidade inevitável da existência da dor. Isto esclarece o motivo por que temos que suportar a dor inevitavelmente.
Toda dor – das menores até as mais angustiantes tragédias – é uma imposição da justiça de Deus em nossa vida. Deus tem controle absoluto nos destinos de todos e tudo. É a sábia e justa lei de Deus que configura os acontecimentos em nossa existência. É sempre efeito de um desrespeito à lei de Deus.
A maioria das vezes os instrumentos utilizados pela justiça de Deus para punição são os perversos, maldosos, irresponsáveis e inconsequentes, é por meio deles que muitas vezes pagamos nosso débito à justiça de Deus. Mas, o mestre foi bem claro quanto a consequência para quem serve de instrumento ao mal ainda que a lei de Deus utilize este recurso para nosso resgate, quando disse: “Ai daquele homem por quem o escândalo vem.”
É o demônio humano a atormentar-se mutuamente em sua história e sempre a sofrer as danosas consequências de sua estúpida rebeldia.
Pobres de nós se não existisse a misericórdia e sabedoria de Deus a manter a ordem na existência do mundo.

Desditosos seríamos nós para sempre se esta misericórdia não trouxesse até nós o iluminado evangelho de nosso divino mestre Jesus por meio de seu sacrifício sublime.