05 - O CAMINHO DO REINO
Na tosca residência de Arão, o curtidor, dizia Jesus a
Zacarias, dono de extensos vinhedos
em Jericó:
- O Reino de Deus será, por fim, a vitória do bem, no
domínio dos homens!... O Sol cobrirá o
mundo por manto de alegria luminosa, guardando a paz
triunfante. Os filhos de todos os
povos andarão vinculados uns aos outros, através do apoio
mútuo. As guerras terão
desaparecido, arredadas da memória, quais pesadelos que o
dia relega aos princípios da
noite!... Ninguém se lembrará de exigir o supérfluo e nem se
esquecerá de prover os
semelhantes do necessário, quando o necessário se lhes faça
preciso. A seara de um
lavrador produzirá o bastante para o lavrador que não
conseguiu as oportunidades da
sementeira e o teto de um irmão erguer-se-á igualmente como
refúgio do peregrino sequioso
de afeto, sem que a idéia do mal lhes visite a cabeça... A
viuvez e a orfandade nunca mais
derramarão sequer ligeira lágrima de sofrimento, porquanto a
morte nada mais será que
antecâmara da união no amor perpétuo que clareia o sem-fim.
Os enfermos, por mais
aparentemente desvalidos, acharão leito repousante, e as
moléstias do corpo deixarão de
ser monstros que espreitam a moradia terrestre, para
significarem simplesmente notícias
breves das leis naturais no arcabouço das formas. O trabalho
não será motivo de cativeiro e
sim privilégio sagrado da inteligência. A felicidade e o
poder não marcarão o lugar dos que
retenham ouro e púrpura, mas o coração daqueles que mais se
empenham no doce
contentamento de entender e servir. O lar não se erigirá em
cadinho de provação, porque
brilhará incessantemente por ninho de bênçãos, em cujo
aconchego palpitarão as almas
felizes que se encontram para bendizer a confiança e a
ternura sem mácula. O homem
sentir-se-á responsável pela tranqüilidade comum, nos moldes
da reta consciência,
transfigurando a ação edificante em norma de cada dia; a
mulher será respeitada, na
condição de mãe e companheira, a que devemos,
originariamente, todas as esperanças e
regozijos que desabrocham na Terra, e as crianças serão
consideradas por depósitos de
Deus!... A dor de alguém será repartida, qual transitória
sombra entre todos, tanto quanto o
júbilo de alguém se espalhará, na senda de todos, recordando
a beleza do clarão estelar... A
inveja e o egoísmo não mais subsistirão, visto que ninguém
desejará para os outros aquilo
que não aguarda em favor de si mesmo! Fontes deslizarão
entre jardins, e frutos
substanciosos penderão nas estradas, oferecendo-se à fome do
viajor, sem pedir-lhe nada
mais que uma prece de gratidão à bondade do Pai, de vez que
todas as criaturas alentarão
consigo o anseio de construir o Céu na Terra que o todo
misericordioso lhes entregou!...
Deteve-se Jesus contemplando a turba que o aplaudia,
frenética, minutos depois da sua
entrada em Jerusalém para as celebrações da Páscoa, e,
notando que os israelitas se
diferençavam entre si, a revelarem particularidades das
regiões diversas de que procediam
acentuou:
- Quando atingirmos, coletivamente, o Reino dos Céus,
ninguém mais nascerá sob qualquer
sinal de separação ou discórdia, porque a Humanidade se
regerá pelos ideais e interesses
de um mundo só!...
Enlevado, Zacarias fitou-o com ansiosa expectação e ponderou
com respeito:
- Senhor, vim de Jericó para o culto às tradições de nossos
antepassados; todavia, acima de
tudo, aspirava a encontrar-te e ouvir-te... Envelheci,
arando a gleba e sonhando com a paz!...
Tenho vivido nos princípios de Moisés; no entanto, do fundo
de minha alma, quero chegar ao
Reino de Deus do qual te fazes mensageiro nos tempos
novos!... Mestre! Mestre!... Para
buscar-te percorri a trilha de minha estância até aqui,
passo a passo... De vila em vila, de
casa em casa, um caminho existe, claro, determinado... Qual
é, porém, Senhor, o Caminho
para o Reino de Deus?
- A estrada para o Reino de Deus é uma longa subida... –
começou Jesus, explicando.
Eis, contudo, que filas de manifestantes penetraram o
recinto, interrompendo-lhe a frase e
arrebatando-o à praça fronteiriça, recoberta de flores.
* * *
Zacarias, em êxtase, demandou o sítio de parentes, no vale
de Hinom, demorando-se por
dois dias em comentários entusiastas, ao redor das promessas
e ensinos do Cristo, mas, de
retorno à cidade, não surpreende outro quadro que não seja a
multidão desvairada e
agressiva...
Não mais a glorificação, não mais a festa. Diante do
ajuntamento, o Mestre, em pessoa, não
mais querido. Aqueles mesmos que o haviam honorificado em
cânticos de louvor apupavam-no
agora com requintes de injúria.
O velho de Jericó, translúcido de espanto, viu que o Amado
Amigo, cambaleante e suarento,
arrastava a cruz dos malfeitores... Ansiou abraçá-lo e
esgueirou-se, dificilmente, suportando
empuxões e zombarias do populacho... Rente ao madeiro, notou
que um grupo de mulheres
chorosas obrigava o Mestre a parada imprevista e,
antecedendo-se-lhes à palavra, ajoelhou-se
diante dele e clamou:
- Senhor!... Senhor!...
Jesus retirou do lenho a destra ferida, afagou-lhe, por
instantes, os cabelos que o tempo
alvejara, lembrando o linho quando a estriga descansa junto
da roca, e falou, humilde:
- Sim, Zacarias, os que quiserem alcançar o Reino de Deus
subirão ladeira escabrosa...
Em seguida, denotou a atenção de quem escutava os insultos
que lhe eram endereçados...
Finda a pausa ligeira, apontou para o amigo, com um gesto, a
poeira e o pedregulho que se
avantajavam à frente e, como a recordar-lhe a pergunta que
deixara sem resposta, afirmou
com voz firme:
- Para a conquista do Reino de Deus, este é o caminho...