80 - O PROBLEMA DA RENÚNCIA
Prossigamos nos caminhos da evolução, que agora atingirá
problemas mais substanciais, penetrando as camadas mais profundas da
personalidade. Enfrentemos as mais altas fases da ascensão, mostrando o
trabalho adequado para os tipos humanos mais elevados. Nossas construções são
todas na consciência, a única a armazenar valores indestrutíveis. É em função
dessas construções que concebo qualquer forma de atividade humana. Não vos
abandoneis à inconsciência do carpe diem (aproveite o dia). Indispensável
preparar-se o futuro. Não se pode dizer: gozemos, não há amanhã. Porque o
amanhã chega e vos encontra despreparados. A inconsciência não evita as
reações. É preciso enfrentar com seriedade e coragem muitos problemas
individuais e sociais, que vossos ancestrais talvez não sentissem coletivamente
mas que, sem dúvida, não resolveram. É necessário compreender tudo e refazer
dos alicerces, especialmente o homem, que é apenas uma criança. Tendes diante
de vós imenso trabalho, e apenas o começastes. Deveis realizar acima de tudo
uma construção moral e maravilhosa e é para preparar-vos para ela que executei
tão longa viagem, desde os movimentos primordiais até o espírito.
A lei futura está,
não há dúvida, no Evangelho do Cristo e se realizará no esperado Reino de Deus.
Mas esta lei vos aparece hoje como um caso limite, de que só é possível
avizinhar-se por aproximações sucessivas, por meio do uso inteligente das
forças biológicas. As verdadeiras soluções partem do indivíduo e de seu coração,
atingem a substância, mudando primeiro a conformação da alma individual. Não se
trata de experiências coletivas exteriores, de sistemas reorganizados; mas
trata-se de maturação biológica; trata-se de compreendê-la e de secundá-la. Não
pode ser negada, porque é irresistível.
O problema pode
considerar-se como religioso, político, econômico, jurídico, artístico,
científico; atinge o homem integral e, portanto, todas as suas manifestações.
Não se trata de destruir, mas de sublimar os caracteres fundamentais da
personalidade: vontade cada vez mais viril, inteligência mais aguda, coração
sempre mais sensível e aberto. Do homem deve nascer o anjo. É a redenção de
Cristo. O Evangelho é o seu código, a virtude é a norma, a vida dos santos, a
experiência. É a fé que anima todas as religiões, cada uma em seu nível. Corpo
e espírito são posições vizinhas, duas fases, dois mundos, duas leis. A
evolução tem que realizar a ascensão BETA->ALFA (Da Matéria ao espírito).O primeiro já está feito. A
evolução continua e é necessário fazer evoluir o segundo, consolidar e elevar
vossas tentativas de formações psíquicas (paixões, embriões de
intelectualidade, esboços de alma coletiva). O homem conquistou o poder fora de
si, o domínio da Terra. Agora tem que conquistar o poder dentro de si, o
domínio do espírito.
Num mundo em que
ninguém pensa no semelhante como seu irmão, como se a sorte do próximo pudesse
ficar isolada e não recaísse sobre todos; num mundo em que ninguém tem em si a
medida da própria expansão, mas a espera da reação dos outros, que igualmente
quereriam expandir-se sozinhos, acima de todos; nesse mundo, a aparente utopia
evangélica é o único cimento coordenador de atividades e construtor do
organismo social. Todos aguardam sistemas exteriores, contanto que não mudem a
si mesmos. Nas mais diferentes experiências sociais todos ficam sempre
idênticos, mas o progresso social só pode verificar-se através dos progressos
individuais somados; a melhoria do organismo virá da melhoria de cada uma de
suas células. Assim se realiza a grandiosa ascensão humana que, partindo do
inferno da animalidade (o mundo da fera), através do purgatório da prova que
ensina ou da dor que redime (lei de equilíbrio), chega ao paraíso das
realizações do divino (o mundo super-humano). As vias da evolução são também as
vias da libertação das trevas, do mal, da dor.
É necessário
demolir e reconstruir; sufocar a animalidade individual e social e qualquer
expressão dela, substituindo-lhe por manifestações de ordem superior. Para
reedificar, mister também destruir, depois substituir e reconstruir. Se a
renúncia é necessária como demolição, é indispensável substituir o velho com
novas paixões, impulsos e criações, para que o ritmo da vida não pare e o
espírito não fique árido. É necessário que o alegre esforço de renascer mais
alto supere e absorva o tormento da morte mais embaixo. Evitai as loucuras da
renúncia pela renúncia: isso provoca perigosas zonas de vazio, em que a alma se
atrofia. Mas seja a luta tempestuosa e heróica, como a dos conquistadores que
avançam seguros; seja de arrojo de paixão que sabe vencer tudo; seja em cada
átimo cheia de alegria de uma juventude renovada. Forma-se, então, entre corpo
e espírito, uma rivalidade, uma guerra, que os místicos bem conheceram e
descreveram.
Se subimos aos mais
altos níveis, parece que a velha forma biológica, que se atrofia, não pode mais
suportar o psiquismo hipertrofiado e surgem desequilíbrios aparentes, que a
ciência, não sabendo compreendê-los, define como patológicos, classificando-os
como formas de neurose. A matéria é pertinaz, mas é filha do passado que se
supera; o espírito sofre, mas o futuro pertence-lhe; passado e futuro
significam força e justiça, dor e alegria, escravidão e liberdade, mal e bem;
extremos entre os quais oscila a alma humana para sua ascensão.
Para os seres
evoluídos, essas realidades do espírito - inconcebíveis para os tipos
inferiores - podem ser irresistíveis. Então a luta assume proporções tremendas,
entre um espírito que busca com toda a força sua afirmação e exige para si toda
a vida, e uma natureza inferior, que não quer ceder o campo e não quer morrer.
O passado resiste sólido, por impulsos de milênios, cristalizados nas formas.
Ao incêndio do espírito opõe a inércia das grandes massas e agarra-se como
contrapeso ao frêmito do anjo alado que anseia voar. O espírito vê, guia,
segura, é o centro dinâmico. A matéria é massa estabilizada que fixou e
conserva as conquistas feitas. O espírito está à testa, arrisca novos
equilíbrios, destacando-se dos caminhos conhecidos, arrostando perigos para si;
o esforço é todo seu. O organismo humano está construído para prover, com um
mínimo de esforço psíquico, a sua vida vegetativa, para atender ao metabolismo
e não para suportar as tempestades da alma. Mas para esses seres, cada átimo de
vida é um átimo de transformismo evolutivo, a grande caminhada não pode
deter-se e a vida desloca seu centro. Tudo se transforma no ser: paixões e
aspirações, numa realização cada vez mais intensa do divino. Drama laborioso e
fecundo, que só os grandes souberam viver, que a grande arte do futuro saberá
compreender e representar. Lutas e vitórias de titãs. Impô-las a quem não está
maduro, significa dar a morte, sem tornar a dar a vida.