Bartolomeu foi um dos mais dedicados
discípulos do Cristo, desde os primeiros tempos de suas pregações junto ao
Tiberíades; contudo, Bartolomeu era triste e, vezes inúmeras, Jesus o
surpreendia em meditações profundas e dolorosas.
Bartolomeu não sabia explicar o porquê
de suas tristezas, mas dizia que o Evangelho o enchia de esperanças. “Quando
esclarecestes que o vosso reino
não é deste mundo -- disse ele a Jesus --, experimentei uma nova coragem para
atravessar as misérias
do caminho da Terra, pois, aqui,
o selo do mal parece obscurecer as coisas mais puras!... Por toda parte, é a
vitória do crime, o jogo das ambições, a colheita dos desenganos!...”
Jesus lhe falou, com serenidade, que seu reino ainda não era deste mundo, mas
isso não significava que ele não gostaria de estendê-lo aos corações que mourejam
na Terra. O Evangelho teria, contudo, de florescer primeiramente na alma das
criaturas, antes de frutificar para o espírito dos povos.
O Senhor lembrou-lhe, então, que a vida terrestre é uma estrada pedregosa, mas
que conduz aos braços amorosos de Deus. “O trabalho é a marcha. A luta comum é
a caminhada de cada dia. Os instantes deliciosos da manhã e as horas noturnas
de serenidade são os pontos de repouso”, asseverou o Cristo. “Na atividade ou
no descanso físico, a oportunidade de uma hora, de uma leve ação, de uma
palavra humilde, é o convite de Nosso Pai para que semeemos as suas bênçãos
sacrossantas.”
Após explicar por que os viajores da Terra estão sempre desalentados, Jesus
acrescentou: “A verdade não exige: transforma. O Evangelho não poderia reclamar
estados especiais de seus discípulos; porém, é preciso considerar que a
alegria, a coragem e a esperança devem ser traços constantes de suas atividades
em cada dia”.
E quando os negócios do mundo nos são adversos? E quando tudo parece contra
nós? A tais questões, propostas por Bartolomeu, Jesus respondeu: “Qual o melhor
negócio do mundo, Bartolomeu? Será a aventura que se efetua a peso de ouro,
muita vez amordaçando-se o coração e a consciência, para aumentar as preocupações
da vida material, ou a iluminação definitiva da alma para Deus, que se realiza
tão-só pela boa-vontade do homem, que deseje marchar para o seu amor, por entre
as urzes do caminho? Não será a adversidade nos negócios do mundo um convite
amigo para a criatura semear com mais amor, um apelo indireto que a arranque às
ilusões da Terra para as verdades do reino de Deus?”
E quando perdemos um ente amado -- insistiu Bartolomeu --, é justo ficarmos
tristes? Jesus respondeu: “Mas, quem estará perdido, se Deus é o Pai de todos
nós?” “Se os que estão sepultados no
lodo dos crimes hão de vislumbrar, um dia, a alvorada da redenção, por que
lamentarmos, em desespero, o amigo que partiu ao chamado do Todo-Poderoso? A
morte do corpo abre as portas de um mundo novo para a alma. Ninguém fica
verdadeiramente órfão sobre a Terra, como nenhum ser está abandonado, porque
tudo é de Deus e todos somos seus filhos”.
Feliz com os ensinamentos colhidos, Bartolomeu dirigiu-se para Dalmanuta, onde
residia, meditando nas lições recebidas. Era madrugada quando chegou a casa. Ao
ranger os gonzos da porta, seus irmãos dirigiram-lhe impropérios, acusando-o de
mau filho, de vagabundo e traidor da lei. O apóstolo recordou, porém, o
Evangelho e sentiu que tinha bastante alegria para dar a seus irmãos. Por isso,
em vez de reagir asperamente, como de outras vezes, sorriu-lhes com a bondade
das explicações amigas.
Seu velho pai também o acusou, escorraçando-o, mas Bartolomeu achou natural. Seu
pai não conhecia a Jesus e ele o conhecia. Depois de repousar alguns momentos,
tomou as suas redes velhas e demandou sua barca, tendo para com todos os companheiros
de serviço uma frase consoladora e amiga, irradiando ao seu redor a alegria de
que falara o Cristo.